Cuidar dos irmãos
Leituras: Ez 33,7-9; Rm 13,8-10; Mt 18,15-20
O mundo moderno vive geralmente sob o signo do egoísmo, do isolamento, do desinteresse pelos outros. “Pensa em ti mesmo”, “Trata da tua vida”, “Não metas o nariz nos assuntos alheios”, “Homo homini lupus”, “Mors tua, vita mea”, “Pouca gente, vida alegre”, “Morto eu, mortos todos”…: são as “máximas” correntes da moral contemporânea. A lógica de Deus é completamente diferente: o nosso Deus é o Deus da relação, é o Deus da “justiça” (em hebraico “sedaqah” e em grego “dikaiosyne”), que na Bíblia outra coisa não significa senão a sua vontade de ser comunicação, comunhão, solidariedade.
Deus cria o homem para que também ele seja relação, com toda a criação e sobretudo com os seus semelhantes. Desde o Génesis é recordada a recíproca fraternidade dos homens: na narrativa de Caim e Abel (Gn 4,1-16) a palavra-chave “irmão” (“‘ah”) ocorre nada menos que sete vezes. E é sublinhado que cada um é guardião do seu irmão: cada um é responsável diante de Deus pelos problemas, pelas dores, pelas tragédias dos outros. Porque “a voz do sangue do teu irmão clama da terra por mim” (Gn 4,10), diz o Senhor: a Ele teremos de responder por todos os mortos de fome, de solidão, de doenças curáveis, de pobreza, de violência por conflitos sociais, raciais, económicos, políticos, religiosos: cada homem é meu irmão! Caim é expulso para uma terra desértica (Gn 4,12.14), contudo também ele é um irmão e, portanto, levará um sinal que o protegerá da vingança (Gn 4,15).
A consciência de ser um povo de irmãos regula em Israel as relações sociais: o Deuteronómio retoma todas as disposições do Êxodo reinterpretando-as em chave de fraternidade (Dt 15,1-15). O Levítico afirma: “Não odiarás o teu irmão…, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,17-18). O “irmão” não é apenas o membro da mesma família, do mesmo clã ou do mesmo povo, mas também o estrangeiro (Lv 19,34).
Ezequiel recorda-nos, na primeira Leitura (Ez 33,7-9), que cada crente é responsável diante de Deus da sorte dos irmãos, e para eles é constituído sentinela (“sopeh”), para lhes anunciar a Palavra do Senhor. E Paulo afirma que toda a nossa fé se deve traduzir no entrar na lógica do Deus da relação: “o pleno cumprimento de toda a Lei é o amor” (segunda Leitura: Rm 13,10).
O Evangelho (Mt 18,15-20) convida-nos a todos os esforços para reconstruir relações profundas com os irmãos, tornando-nos ministros de verdadeira reconciliação e de perdão. Diante do mundano: “Quem quer saber!”, o Evangelho chama-nos àquele que será o lema do Padre Milani: “I care”, “Eu me importo”, “Interesso-me”.
A fonte daquele milagre que é a transformação dos nossos desertos de solidão e egoísmo nos prados luxuriantes da relação e da caridade é o próprio Cristo, sempre presente onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome (Mt 18,20). E cada Eucaristia, encontro especialíssimo com Ele, deve impelir-nos a criar laços de fraternidade profunda a nível não só pessoal mas também comunitário e social. “A Eucaristia é uma reconciliação com Deus que se realiza mediante uma reconciliação entre nós e com as coisas. O pão e o vinho são o «símbolo dos bens da terra e do trabalho do homem»: o símbolo do petróleo, do carvão, do cobre, do ouro, das bananas, do açúcar, do café, dos manufaturados, das máquinas, de todos aqueles bens, isto é, que são a causa primeira das nossas separações, da desigualdade profunda entre povos, entre nações e nações, entre homem e homem, os símbolos da não-fraternidade, da exclusão. O grande tema que todas as gerações têm atribuído como tarefa essencial a realizar…, é precisamente o tema eucarístico: o tema da igualdade entre todos os homens, da relação e da reconciliação” (A. Paoli).

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