A Igreja não afirma a imortalidade da alma, mas no seu “Credo” proclama: “Creio na ressurreição da carne, na vida eterna” (Símbolo dos Apóstolos); “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir” (Símbolo Niceno-Constantinopolitano), como afirma a Segunda Leitura (1 Cor 15,20-26).
Assim, a Igreja Católica proclamou com Pio XII em 1950 a Assunção de Maria ao céu em corpo e alma, protótipo de todos os crentes. São Justino afirmava: “Quando encontrares alguém que se diz cristão, pergunta-lhe: «Crês na ressurreição dos mortos ou na imortalidade da alma? Se te responder: “A imortalidade da alma”, não é cristão»”.
Afirma Enzo Bianchi: “Parece que a ressurreição da carne, a ressurreição dos nossos corpos, é a «coisa» mais estranha que a fé cristã pede para crer. Não por acaso, as análises sociológicas sobre a fé dos católicos revelam que, embora a maioria creia em Deus, nem 20% crê na ressurreição da carne… Quando se escuta o que os cristãos pensam sobre o além, fica-se muitas vezes constrangido. Falam com frequência de reencarnação (termo desconhecido há um século e introduzido pelo espiritismo)… Esses fiéis esquecem que, no hinduísmo e no budismo, a reencarnação é uma condenação, pois a salvação consiste em sair desse ciclo!”.
A revelação bíblica é um hino à corporeidade, chamada à redenção e à ressurreição. Paulo anuncia a ressurreição não por uma suposta imortalidade da alma, mas pelo amor de Deus: “O corpo é para o Senhor, e o Senhor é para o corpo” (1 Cor 6,13). É um mistério sublime: o próprio Deus ama e santifica o nosso corpo, chamado à imortalidade, membro do Corpo de Cristo e “templo do Espírito Santo” (1 Cor 6,13-19).
Na escatologia, os nossos corpos serão transfigurados: “Semeia-se corruptível, ressuscita incorruptível; semeia-se na desonra, ressuscita na glória; semeia-se na fraqueza, ressuscita na força; semeia-se corpo animal, ressuscita corpo espiritual” (1 Cor 15,42-45). Mas serão os nossos corpos! Como revelam as aparições de Jesus ressuscitado, há uma profunda novidade, mas também continuidade: Ele atravessa portas (Jo 20,19), mas pode ser tocado (Jo 20,20-27) e come com os discípulos (Lc 24,41-42).
“Desde as origens da Igreja, a ressurreição da carne foi contestada em Corinto (1 Cor 15), e os apóstolos alertaram contra aqueles que a reduziam a uma realidade puramente espiritual (2 Tm 2,16-18). Embora humanamente difícil de conceber, é o centro da esperança cristã. A Palavra fez-se sárx, carne, e habitou entre nós (Jo 1,14). Como afirmava Job: «Esta minha carne verá o Salvador» (Jó 19,26-27)” (E. Bianchi).
Enterrar os mortos
No Antigo Testamento, encontramos admiráveis testemunhos de piedade: Abraão sepultando Sara (Gn 23,6); José sepultando seu pai Jacob (Gn 50,7.14); e Tobias, que arriscou a vida para sepultar os mortos, sofrendo perseguição e confisco de bens (Tb 1,17-20), retomando com coragem esta Obra de Misericórdia (Tb 2,1-9).
No Novo Testamento, a mulher em Betânia unge o Senhor prevendo a sua sepultura (Mt 26,6-16); José de Arimateia pede o corpo de Jesus a Pilatos e oferece o seu próprio sepulcro (Mt 27,57-60); e Nicodemos traz preciosos aromas (Jo 19,38-42).
A Sagrada Escritura exorta: “Filho, derrama lágrimas sobre um morto e entoa o lamento; depois, sepulta o seu corpo segundo o rito e não descuides a sua sepultura” (Sir 38,16).
A pastoral do luto
É essencial que cada paróquia disponha de uma pastoral do luto para acolher e orientar as famílias enlutadas, evitando que as agências funerárias transformem a despedida num acontecimento puramente comercial.
A morte deve ser vivida na fé pascal. As exéquias cristãs não são uma celebração biográfica do falecido, mas o anúncio solene da vitória de Cristo sobre a morte. Como recordava D. Cesare Nosiglia, arcebispo de Turim: “Para evitar desvirtuar o Mistério pascal, não devem ser permitidos discursos profanos no momento da despedida litúrgica”.
Homenagens pessoais e textos devem ser acolhidos na vigília de oração, no átrio da igreja ou no cemitério, preservando o ambão unicamente para a Palavra de Deus. São desapropriados aplausos, bandeiras desportivas ou canções mundanas no templo: as exéquias confiam o defunto à Misericórdia divina.
A cremação é permitida, desde que não exprima rejeição da fé cristã. Contudo, a Igreja opõe-se à dispersão das cinzas porque «impede a possibilidade de exprimir, com referência a um lugar preciso, a dor pessoal e comunitária. Além disso, torna mais difícil a memória dos mortos, extinguindo-a antes do tempo. Para as gerações seguintes, a vida daqueles que as precederam desaparece sem deixar vestígios» (Rito das Exéquias, n. 165), desaconselhando igualmente a sua conservação em residências particulares.
Por fim, as famílias não devem ficar desamparadas após o funeral: a comunidade deve oferecer apoio espiritual, afetivo e prático.
“Na comunhão fraterna ao serviço das exéquias, testemunhamos uma comunhão maior que a separação e uma vida mais forte que a morte” (D. C. Nosiglia).
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