Padre Ferdinando Colombo: Suportar com paciência as pessoas inoportunas

17 de November, 2024

sopportare le persone moleste

Um célebre texto da tradição cristã, particularmente franciscana, permite-nos introduzir esta obra de misericórdia de modo crítico e fecundo.

Nos Fioretti, Francisco explica a frei Leão em que consiste a perfeita alegria e diz-lhe:

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«Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, tão molhados pela chuva, enregelados pelo frio, cobertos de lama e atormentados pela fome, e batermos à porta do lugar, e o porteiro vier enfurecido e disser: Quem sois vós?

E nós dissermos: Somos dois dos vossos irmãos; e ele disser: Não dizeis a verdade, sois dois vagabundos que andais enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; ide-vos embora; e não nos abrir, fazendo-nos permanecer lá fora na neve e na água, com frio e com fome até a noite; então, se suportarmos tanta injúria, tanta crueldade e tantas rejeições pacientemente, sem nos perturbarmos e sem murmurar contra ele, e pensarmos com humildade que aquele porteiro realmente nos conhece e que Deus o faz falar contra nós; ó frei Leão, escreve que aí está a perfeita alegria.

E se continuarmos batendo, e ele sair perturbado e, como a vadios importunos, expulsar-nos com ofensas e bofetadas, dizendo: Fora daqui, ladrõezinhos desprezíveis, ide para o hospital, pois aqui não comereis nem vos hospedareis; se nós suportarmos isso com paciência, com alegria e com boa caridade; ó frei Leão, escreve que aí está a perfeita alegria.

E se, forçados pela fome, pelo frio e pela noite, batermos ainda mais, chamando e suplicando pelo amor de Deus, com grande pranto, que nos abra e nos recolha, e ele, mais escandalizado, disser: Estes homens são velhacos importunos, eu lhes darei o que merecem; e sair com um bastão nodoso, agarrar-nos pelo capuz, atirar-nos por terra, revolver-nos na neve e bater-nos nó por nó com aquele bastão: se todas essas coisas suportarmos pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, os quais devemos suportar por Seu amor; ó frei Leão, escreve que aqui e nisto está a perfeita alegria».

O texto nos interpela: quem é “incômodo” nesta narrativa? Os dois frades que batem com insistência buscando abrigo do frio e da noite? Ou aquele que não quer acolhê-los, apresentando pretextos e recusando-se a ouvir razões?

Ou seja: quando uma pessoa é sentida como incômoda? Quando, e por que razão, ela nos incomoda? Quando sentimos que alguém é insuportável? Por que determinado comportamento de uma pessoa nos perturba?

Ao perceber incômodo diante de alguém e ao sentir a sua insuportabilidade, dá-se também uma revelação de nós a nós mesmos. Sentir uma pessoa como irritante e incômoda pode ser simplesmente a manifestação de sentimentos egoístas e racistas, ou de medo e rejeição do confronto.

Pode-se pensar, por exemplo, no sentimento que muitos experimentam em relação aos imigrantes que chegam ao nosso país.

Além disso, este texto apresenta um caso clamoroso de recusa da paciência e da tolerância para com quem é considerado importuno, mas também um exemplo heróico de paciência diante da intolerância alheia transformada em violência agressiva.

Essa capacidade de suportar fundamenta-se no Evangelho e no exemplo de Cristo, sendo tornada possível pela fé.

Francisco prossegue o diálogo com frei Leão afirmando que é graça do Espírito Santo poder vencer a si mesmo e suportar de bom grado, por amor de Cristo, dores, injúrias, opróbrios e dificuldades, sem se comprazer disso, mas pondo a sua glória unicamente na cruz de Cristo:

«Na cruz da tribulação e da aflição podemos gloriar-nos, pois diz o Apóstolo: Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (Gl 6,14)».

A paciência é o olhar grandioso de Deus em relação ao ser humano, um olhar que não se detém no pormenor, no incidente de percurso, que não toma o pecado como palavra final, mas o insere em todo o caminho existencial que o homem é chamado a percorrer.

Por isso, ela expõe Deus ao risco de não ser levado a sério, de ser “usado” pelo homem. Em Cristo, e de modo singular na Sua paixão e morte, a paciência de Deus atinge o seu ápice como assunção radical da fragilidade humana, da sua fraqueza e do seu pecado.

Em Cristo, Deus aceita “carregar o peso”, “suportar” a imperfeição e a limitação humanas, assumindo a responsabilidade pelo homem em sua falibilidade. A “paciência de Cristo” (2Ts 3,5) expressa assim o amor de Deus, tornando-se o seu sacramento.

Hoje, porém, a paciência perdeu muito de seu encanto: o ritmo apressado incentiva a impaciência, o imediatismo, o “tudo e agora”, a posse que não concede espaço à espera.

A afirmação individualista de si torna-se recusa de esperar e compreender o outro, que rapidamente arrisca ser visto como incômodo, irritante ou obstáculo.

Assim, a paciência, que outrora era uma forma sábia e humana de habitar o mundo, foi deixada no esquecimento. Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer com realismo que a paciência nem sempre é uma virtude, assim como a impaciência nem sempre é uma falha.

A paciência é uma arte. Nada tem a ver com a submissão passiva. Pelo contrário, é quem não tem paciência que com maior frequência acaba por se submeter.

A aceitação paciente, livre e amorosa em relação a quem é desagradável, antipático, enfadonho ou lento alinha-se ao amor aos inimigos (cf. Mt 5,38-48; Lc 6,27-35). Exige um trabalho interior para aprender a conhecer e amar o inimigo que existe dentro de nós, o que em nós é incômodo e insuportável a nós mesmos, e que Deus, em Cristo, suportou pacientemente, amando-nos de forma incondicional.

Dessa forma, a paciência torna-se abertura de futuro para o outro, confirmação de confiança nele, luta a seu lado e por ele contra a tentação do desespero. (Luciano Manicardi)

Oração

«Pedi a Deus» (de Kirk Kilgour)

Pedi a Deus forças para executar projetos grandiosos: Ele me fez fraco para me conservar na humildade.

Pedi a Deus que me desse saúde para realizar grandes feitos: Ele me deu a dor para compreendê-la melhor.

Pedi-Lhe riqueza para possuir tudo: Ele me fez pobre para não ser egoísta.

Pedi-Lhe poder para que os homens precisassem de mim: Ele me deu a humilhação para que eu precisasse deles.

Pedi a Deus tudo para desfrutar a vida: Ele me deixou a vida para que eu pudesse apreciar tudo.

Senhor, não recebi nada do que pedia, mas deste-me tudo aquilo de que eu precisava e quase contra a minha vontade.

As orações que não fiz foram atendidas.

Louvado sejas, ó meu Senhor; entre todos os homens ninguém possui o que eu tenho!

Ilustração da irmã Marie-Anastasia Carré (Communauté des Béatitudes)

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