Dar pousada aos peregrinos: a obra de misericórdia na arte de Caravaggio

2 de Junho, 2024

«Repouso durante a Fuga para o Egito»
«Repouso durante a Fuga para o Egito», pintura realizada em 1597 pelo pintor italiano Caravaggio.

A obra de misericórdia corporal “dar pousada aos peregrinos” vista através das telas de diversos artistas

Uma das obras de misericórdia corporal que mais nos interpela nos dias de hoje, diante da nossa realidade social, é acolher os forasteiros e dar pousada aos peregrinos.

Por peregrino compreende-se o estrangeiro, aquele que caminha de um lugar a outro, muitas vezes na indigência e na inquietação, em busca de um refúgio seguro e esperado. Muitos foram os viajantes que, por vezes ameaçados de morte, tiveram de abandonar tudo e enfrentar travessias perigosas.

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Caravaggio (1571-1610) transformou essa passagem num marco da história da arte. O «Descanso na Fuga para o Egito», na Galeria Doria Pamphilj (1597), narra precisamente quando José, para salvar sua família, enfrentou essa jornada árdua até chegar à desconhecida terra do Egito.

Movido por uma fé viva na misericórdia de Deus, o pintor retrata a cena com imensa ternura, debruçando-se sobre os afetos mais íntimos e reproduzindo a pausa do caminho com tocante naturalidade.

Trata-se de uma família humilde. Maria descansa com a cabeça apoiada na do Filho. Enquanto uma de suas mãos repousa no regaço, a outra ampara a criança para que não caia, adormecida com serenidade em seus braços, alheia a todas as aflições.

José, atento e vigilante, sentado sobre a sacola de provisões típica dos camponeses, ao lado de uma cabaça de água, segura uma partitura aberta. Caravaggio, com seu dom singular e imaginação inventiva, recria o que poderia ter acontecido naquele instante.

O divino e o humano se entrelaçam. É o próprio Deus quem acolhe esses peregrinos, enviando um anjo com solicitude e delicadeza. A figura angélica, luminosa e harmoniosa no centro do quadro, toca ao violino uma suave melodia, como acalanto de ninar.

A paisagem em torno acolhe a família com frescor e serenidade. Uma iluminação suave de entardecer e tonalidades cálidas destacam cada detalhe, eternizando o merecido repouso após um dia exaustivo de marcha.

Mas o temperamento impetuoso do artista e seu desejo de expor a verdade crua levaram-no às ruelas de Roma, onde aprimorou seu ofício. Caravaggio enfrentou a escassez, pois muitos consideravam sua linguagem crua e excessivamente realista.

Foi o cardeal Borghese quem compreendeu a grandeza de seu talento, encomendando-lhe, entre 1604 e 1606, a «Madona dos Peregrinos» para a Igreja de Santo Agostinho, em Roma. A obra rompeu com os cânones sacros tradicionais, nos quais a Virgem surgia entronizada com vestes nobres e cortejos celestes.

A Virgem com o Menino surge à porta de uma casa modesta, vestida com simplicidade e com o penteado das mulheres comuns do povo. Com olhar compassivo, acolhe os dois viajantes ajoelhados em prece, impressionados diante de Maria.

Naquela época, a romaria era percorrida a pé. Durante o jubileu de 1600, Caravaggio presenciou a devoção dessa gente pobre que vencia distâncias exaustivas amparada somente pela fé.

O Menino Jesus, seguro nos braços maternos, abençoa com a mão direita e contempla com carinho os devotos vestidos com roupas puídas. O jogo de luz e sombra e a iluminação rasante transformam o quadro num testemunho comovente de atenção aos marginalizados.

Suas obras atestam a dignidade que Deus confere aos desprovidos e pecadores, acolhendo a todos com sua infinita misericórdia.

Hoje, os que buscam guarida em nossas cidades nem sempre apresentam a compostura contrita dos peregrinos de Caravaggio, mas continuam sendo irmãos desamparados a quem não se pode negar a caridade da misericórdia.

Imagem de capa: Wikipedia

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