A obra de misericórdia corporal “sepultar os mortos” vista através das pinturas de alguns artistas.
“Um enterro em Ornans” de Courbet
É um funeral o que nos apresenta Courbet, pintor francês em ruptura com a tradição acadêmica idealista de sua época, em sua monumental tela (6m x 3m) de 1849, preservada no Museu d’Orsay.
É assim que geralmente se inicia o sepultamento de um falecido, e Courbet (1819-1877), para compô-lo, retratou cerca de cinquenta pessoas de sua cidade natal em Ornans, procurando captar as diversas atitudes que comumente movem os participantes de cerimônias fúnebres.
Aqui estão reunidas pessoas comuns, assim como o defunto cujo esquife mal se divisa sob o pano branco, ao lado de uma cova aberta com um crânio e o crucifixo que paira quase timidamente sobre o grupo. As cores são terrosas, escuras e densas; a luz difusa e suave ressalta a presença física dos personagens dispostos em uma única massa horizontal, sob um tom amarelado que se dissolve no cinza-esverdeado do céu.
Reconhecido como o iniciador do realismo, Courbet sofreu duras críticas, especialmente por esta pintura, julgada como uma exaltação da vulgaridade e da feiura por se contrapor abertamente aos ideais do classicismo e do romantismo.
Além disso, apresenta a realidade nua e crua, sem artifícios, em direto contraste com o decoro burguês da época, despojando o rito de solenidades artificiais.
Com efeito, Courbet investiga a psicologia dos presentes e, como ainda ocorre nos dias de hoje, nota as conversas alheias, o desinteresse diante do luto, os olhares dispersos e a presença motivada por mera conveniência social.
Alheios à gravidade do momento, os coroinhas pedem explicações ou mostram-se indiferentes, assim como o sacerdote que conduz a encomendação com postura impassível.
Em meio à multidão reunida sob uma paisagem agreste, destacam-se os clérigos vestidos de vermelho vívido, as vestimentas escuras, as toucas brancas das mulheres e o cão vadio que se aproxima, revelando o verismo cru de um acontecimento humano comum.
“Deposição no sepulcro”, mais conhecida como Pranto sobre o corpo de Cristo deposto, de Rubens
De uma intensidade espiritual inteiramente diversa é o “sepultamento do corpo de Cristo”, executado entre 1602 e 1606 pelo mestre flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640), atualmente na Galleria Borghese.
Aqui também o autor realiza um cuidadoso estudo psicológico das figuras, mas estas demonstram uma comovente participação no mistério, conduzindo o observador a vivenciar de perto o drama da morte.
Rubens admirava profundamente a obra homônima de Caravaggio e, um ano após a morte do mestre italiano em 1610, recriou a cena em Antuérpia, longe do original.
Filho de protestantes, converteu-se ao catolicismo aos 14 anos, fez seu aprendizado em ateliês locais e tornou-se mestre na Corporação dos Pintores de Antuérpia. Logo recebeu importantes encomendas das nobrezas da França, Espanha e Itália, vindo a falecer em Antuérpia.
Nesta composição, Rubens projeta no alto um grande arco escuro, símbolo do trânsito mortal, e faz do corpo de Cristo uma matéria humana pesada, conduzida ao túmulo com esforço palpável.
A sustentá-lo está o jovem São João, que ampara a Virgem Maria em pranto; esta eleva o olhar aos céus, como a implorar forças para suportar uma prova tão lancinante. Cristo, banhado por luz intensa, traz os sinais das torturas, enquanto o ancião à direita parece ser Nicodemos, figurado com as feições de São Filipe Néri.
Com o semblante contraído, ele transparece as dificuldades materiais e a angústia inerentes à realização do sepultamento.
A luz atinge com vigor a face de Cristo e de Maria Madalena, comovida em postura desconcertada ao recordar seu passado, deixando os demais personagens na penumbra para exaltar a dor trágica e respeitar o recolhimento de todos os presentes.
O drama é suavizado por tons quentes que contrastam com fundos sóbrios e atenuados, em oposição à alvura do sudário e da carne de Cristo, conferindo à passagem uma comoção profunda.
“Bênção dos mortos do mar” de Lorenzo Viani
Sepultar os mortos é, sem dúvida, uma obra árdua e, sobretudo em nossos dias, é muitas vezes o mar que assume essa derradeira morada. Quantas vezes ouvimos falar dessas vítimas das águas: pescadores ou migrantes.
Lorenzo Viani, renomado artista contemporâneo de Viareggio, refletiu precisamente sobre este drama e legou uma obra de grande impacto: “Bênção dos mortos do mar” (1914-16), guardada no museu de Viareggio.
A verdadeira protagonista é a dor das mulheres que permanecem unidas em serena aceitação, estreitando nos braços os filhos agora órfãos. O preto compacto de suas vestes destaca esses rostos transformados em máscaras de padecimento, entre os quais sobressai um semblante jovem e doce, reminiscente da Virgem Maria.
Figuras escuras diante de um oceano cinzento, sulcado apenas pela espuma de tímidas ondas, mulheres que esperaram com devoção rezando o terço pelo regresso de entes queridos que jamais retornarão.
As tradições alicerçadas na fé, ritmadas pela passagem inexorável do tempo, são expressas pelo pintor através de um cromatismo enérgico, planos definidos e uma composição rigidamente geométrica.
A tragédia, a angústia da vigília, o entrelaçar das mãos e o aconchego dos filhos já resignados ao destino transmitem sentimentos arrebatadores.
Viani escreve: “também o mar, cemitério sem fim, foi abençoado esta manhã ao alvorecer… As famílias dos desaparecidos reúnem-se ao redor da capelinha… o sacerdote ergue o braço e a bênção orvalha sobre o mar de chumbo”. Imagens e palavras resumem com clareza a verdade desta obra de misericórdia corporal, conclamando todos à reflexão interior.
Imagem de capa: Wikipédia

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