O comentário do biblista Carlo Miglietta sobre a primeira obra de misericórdia espiritual: Aconselhar quem tem dúvidas
Vivemos na sociedade do relativismo. Ao afastarmo-nos de Deus, perdemos as certezas sobre o que é o bem e o que é o mal. A moral já não se baseia em princípios comuns partilhados. Encontramo-nos numa situação semelhante à decadência de que fala o livro dos Juízes, que repete várias vezes: “Cada um fazia o que lhe parecia melhor” (Jz 17,6; 21,25). Neste individualismo total, chegamos a uma “sociedade fluida”, onde cada um faz o que quer e se torna difícil compreender o que é justo.
Procurar ajudar quem vive na dúvida e na incerteza é a primeira das Obras de Misericórdia espirituais. O Papa Francisco afirmava: “Expressar misericórdia para com quem tem dúvidas equivale a aliviar a dor e o sofrimento que provêm do medo e da angústia, consequências da dúvida. É, portanto, um ato de verdadeiro amor com o qual se pretende apoiar uma pessoa na fraqueza provocada pela incerteza”.
Deus é verdade
Deus é verdade: “Bendigo o Senhor, que me deu conselho; mesmo de noite o meu coração me instrui” (Sl 15,7); “Eu te tornarei sábio, indicar-te-ei o caminho a seguir; com os olhos postos em ti, dar-te-ei conselho” (Sl 31,8); “A mim pertencem o conselho e o bom senso; eu sou a inteligência, a mim pertence o poder” (Pr 8,14); “A tua palavra é verdade” (Jo 17,17); “Aconselho-te a comprar de mim ouro purificado pelo fogo para te tornares rico” (Ap 3,18); “Tu me guiarás com o teu conselho e depois me acolherás na tua glória” (Sl 72,24).
Jesus é a Verdade: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6); “Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria e de inteligência, Espírito de conselho e de fortaleza” (Is 11,2); “Quem ouve a minha palavra e acredita naquele que me enviou tem a vida eterna” (Jo 5,24; 8,51); “Já estão purificados pela palavra que lhes anunciei” (Jo 15,3).
O discernimento
Em qualquer idade, o crente é chamado a fazer discernimento e a interrogar-se sobre o que o Senhor quer dele, sobre qual é o seu chamamento na vida e nas situações concretas.
Discernimento deriva do latim discernere, composto por dis, “entre”, e cernere, “distinguir”: discernir é escolher entre as várias possibilidades e, para o crente, colocar-se à escuta do Senhor para compreender a sua vontade, o seu projeto para nós.
Entre os vários carismas enumerados por Paulo está o “discernimento dos espíritos” (1 Cor 10,12), isto é, a capacidade de distinguir o Espírito divino do espírito demoníaco. Esta capacidade de discernimento pode ser exercida por presbíteros, mas também por leigos e leigas. A Escritura diz-nos: “Convive frequentemente com um homem piedoso, que sabes ser observante dos mandamentos e cuja alma é como a tua; se tropeçares, saberá compadecer-se de ti” (Eclo 37,12); “Pede a opinião de toda a pessoa sábia e não desprezes nenhum bom conselho” (Tb 4,18); “Escuta o conselho e aceita a correção, para seres sábio no futuro” (Pr 19,20; 3,21); “A sabedoria encontra-se entre aqueles que aceitam conselhos” (Pr 13,10); “O sábio escuta o conselho” (Pr 12,15).
“(O justo) será repleto de espírito de inteligência; como chuva derramará palavras de sabedoria e, na oração, louvará o Senhor. Orientará o seu conselho e o seu conhecimento, meditará sobre os mistérios de Deus. Fará resplandecer a doutrina do seu ensinamento, gloriar-se-á na lei da aliança do Senhor. Muitos louvarão a sua inteligência; nunca será esquecido, a sua memória não desaparecerá, o seu nome viverá de geração em geração” (Eclo 39,6-10); “Como a sabedoria fica bem aos idosos, e o discernimento e o conselho às pessoas honradas!” (Eclo 25,5); “A ciência do sábio cresce como uma cheia; o seu conselho é como uma fonte de vida” (Eclo 21,13).
O Papa Francisco disse: “Como saber se algo vem do Espírito Santo ou se deriva do espírito do mundo ou do espírito do diabo? O único modo é o discernimento, que não exige apenas uma boa capacidade de raciocínio e de bom senso; é também um dom que deve ser pedido. Se o pedirmos com confiança ao Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos esforçarmos por cultivá-lo com a oração, a reflexão, a leitura e o bom conselho, certamente poderemos crescer nesta capacidade espiritual. O discernimento… é-nos sempre necessário: para sermos capazes de reconhecer os tempos de Deus e a sua graça, para não desperdiçarmos as inspirações do Senhor, para não deixarmos cair o seu convite a crescer… Ao mesmo tempo, o discernimento leva-nos a reconhecer os meios concretos que o Senhor dispõe no seu misterioso plano de amor… Quando examinamos diante de Deus os caminhos da vida, não há espaços que fiquem excluídos. Em todos os aspetos da existência podemos continuar a crescer e oferecer algo mais a Deus, até mesmo naqueles em que experimentamos as maiores dificuldades… O discernimento não é uma autoanálise presunçosa, uma introspeção egoísta, mas uma verdadeira saída de nós mesmos em direção ao mistério de Deus, que nos ajuda a viver a missão à qual nos chamou para o bem dos nossos irmãos e irmãs” (Gaudete et exsultate, nn. 166, 169, 175).
Que o Senhor nos conceda o seu Espírito Santo para nos fazer compreender a missão à qual somos chamados em cada uma das nossas situações, e qual é a nossa vocação no seu plano de Salvação em cada etapa da nossa vida; e que nos conceda a humildade de recorrer aos irmãos ou às irmãs mais sábios na Fé, para que nos ajudem a descobrir a sua vontade.
A catequese
O Papa Francisco dizia: “Penso que alguém poderia perguntar-me: «Padre, tenho tantas dúvidas sobre a fé; o que devo fazer? Nunca tem dúvidas?». Tenho muitas… Claro que, em certos momentos, todos temos dúvidas! As dúvidas que dizem respeito à fé, em sentido positivo, são um sinal de que queremos conhecer Deus melhor e mais profundamente, Jesus e o mistério do seu amor por nós. «Mas tenho esta dúvida: procuro, estudo, observo ou peço conselho sobre o que fazer». Estas são dúvidas que ajudam a crescer! É bom, portanto, que façamos perguntas sobre a nossa fé, porque assim somos levados a aprofundá-la. No entanto, as dúvidas também devem ser superadas. Para isso, é necessário escutar a Palavra de Deus e compreender o que ela nos ensina”. A dúvida pode, portanto, ser um importante momento de crescimento através do aprofundamento da Palavra de Deus, que me leva a aproximar-me do Senhor e da sua Luz. Mas, por vezes, pode ser um simples pretexto para evitar converter-me e comprometer-me a mudar radicalmente a minha vida à luz do Evangelho.
“Um caminho importante que ajuda muito neste sentido é o da catequese, através da qual o anúncio da fé vem ao nosso encontro na realidade concreta da vida pessoal e comunitária” (Papa Francisco).
Nunca será demais sublinhar a importância de uma catequese que aprofunde os fundamentos racionais da Fé, que desmantele as imagens tóxicas de Deus que trazemos dentro de nós, de origem filosófica ou até pagã, mas que não correspondem ao Deus anunciado por Jesus Cristo; uma catequese que nos reconduza ao essencial da Fé. O catequista sério e bem preparado sabe verdadeiramente aconselhar quem tem dúvidas, dissipando as suas perplexidades.
“E há, ao mesmo tempo — acrescentava o Papa Francisco —, outro caminho igualmente importante: viver o mais plenamente possível a fé. Não façamos da fé uma teoria abstrata em que as dúvidas se multiplicam. Façamos antes da fé a nossa vida. Procuremos praticá-la no serviço aos nossos irmãos e irmãs, especialmente aos mais necessitados. Então muitas dúvidas desaparecem, porque sentimos a presença de Deus e a verdade do Evangelho no amor que, sem mérito da nossa parte, habita em nós e que partilhamos com os outros”.

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