Oração de louvor, de ação de graças e de petição
É certamente fácil compreendermos a oração pelos vivos e pelos mortos se esta se traduz em ação de graças pelo testemunho e pelo auxílio que esses irmãos nos oferecem ou ofereceram, ou se expressa louvor a Deus por colocá-los ao nosso lado. Contudo, à luz da revelação de Deus em Cristo, que sentido adquire a oração de petição, se Deus é um Pai bondoso que provê a todos com um desígnio de infinita misericórdia?
Quem dentre nós, perante os pedidos de nossos filhos ou netos relativos à saúde, à realização pessoal ou à felicidade, esperaria que viessem ajoelhar-se à nossa frente, de mãos postas ou braços abertos, a implorar com novenas, promessas, votos ou práticas semelhantes? Se, ao menor espirro de um ente querido, logo corremos a vários médicos e agendamos de imediato tomografias, ressonâncias e consultas com especialistas… Porventura seríamos mais bondosos que Deus? Tenhamos cautela: quando o ser humano se julga superior a Deus, brota o ateísmo! Pois de nada me serviria um Deus assim…
Jesus assegura-nos: “Pedi e vos será dado; buscai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e a quem bate, abrir-se-lhe-á” (Lc 11,9-10).
Todavia, adverte em seguida: “Nas vossas orações, não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais, portanto, como eles, pois o vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes” (Mt 6,7-8).
Sim, a Deus posso confiar tudo: Deus é Aquele que me escuta, o Amigo íntimo, o Pai afetuoso a quem posso recorrer em qualquer circunstância, convicto de ser acolhido e compreendido. O nosso Deus não permanece em silêncio: fez-se Verbo por nós, Palavra encarnada (Jo 1,14), com quem posso dialogar. Posso apresentar-lhe cada dificuldade, incerteza ou aflição, certo de que serão acolhidas no seu Amor. É, portanto, legítimo e fruto de afeto falar com Ele, partilhando o que sentimos como necessidades próprias. O crente pode igualmente suplicar a Deus o “milagre”, isto é, que intervenha suspendendo por instantes a limitação da criatura, mas sabendo, acima de tudo, que o autêntico “milagre” concedido por Deus a todos é o dom do seu Filho, que nos faz ressuscitar com Ele.
Lucas, o mestre da oração, ensina no seu Evangelho: “Qual de vós é o pai que, se o filho lhe pedir um pão, lhe dará uma pedra? Ou se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente em vez do peixe? Ou se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem!” (Lc 11,11-13). A verdadeira oração de petição consiste em suplicar o Espírito Santo: é o rogo para sermos repletos do próprio Amor de Deus, acolhendo a certeza de que Deus caminha connosco, jamais nos abandona, sofre a nosso lado e, na Ressurreição do seu Filho, vencerá qualquer enfermidade, sofrimento e até a própria morte.
A oração de intercessão pelos irmãos
Que sentido guarda, portanto, a oração de intercessão, tão presente no Antigo e no Novo Testamento? Basta lembrar as insignes figuras de intercessores entre os patriarcas (Gn 18,23-32; 20,7), Moisés (Êx 32,11-14; 34,8-9), os profetas (Am 7,1-6; 2 Rs 19,4; Jr 42,2-4), os mártires (2 Mac 7,37-38; At 7,60) e Paulo (Fl 1,3-4; Cl 1,3; 2 Ts 1,11; 2 Cor 13,9). No entanto, todos os cristãos são chamados a interceder pelos irmãos (1 Ts 5,25; 2 Cor 9,14; Ef 6,18-20; Cl 4,3-4; Hb 13,18-19; At 12,5; 20,36; 21,5…), de modo especial pelo perdão dos pecados (Tg 5,16; 1 Jo 5,16) e pelos enfermos, convictos de que “a oração da fé salvará o doente” (Tg 5,13-15), isto é, torná-lo-á participante do plano divino de salvação em Cristo. É indispensável “que se façam súplicas, orações, intercessões… por todos os homens, pelos reis e por todos os que detêm autoridade” (1 Tm 2,1-2), e inclusive pelos nossos perseguidores (Mt 5,44), a exemplo de Jesus (Lc 23,34). “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros para serdes curados. A oração fervorosa do justo tem grande eficácia” (Tg 5,16).
Contudo, só Deus conhece o bem supremo para cada um de nós. A nossa prece não altera o seu desígnio, a despeito de algumas representações antropomórficas do Antigo Testamento, como na passagem em que Abraão parece tentar demover Deus de destruir Sodoma (Gn 18,18-32), ou quando Moisés intercede para aplacar a punição contra o povo idólatra (Êx 32,9-14): “Pois Eu, o Senhor, não mudo” (Ml 3,6). Ademais, se Deus mudasse de desígnio pela força da nossa oração, teria idealizado algo imperfeito antes da nossa súplica, ou escolheria algo inferior ao bem pleno depois da nossa invocação: e tal suposição é impossível, pois o Amor só pode almejar o bem supremo da pessoa amada. Felizmente, “o Espírito socorre a nossa fraqueza; pois não sabemos como rezar como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8,26).
Que valor tem, então, esta intercessão recíproca, se Deus não altera por causa das nossas orações o seu plano de amor para connosco?
Em primeiro lugar, a oração de intercessão é um diálogo com Deus a respeito dos nossos irmãos: traduz o reconhecimento de que Ele cuida de todos os seus filhos e atende ao clamor dos que sofrem; representa, desse modo, uma expressiva afirmação de fé.
Em segundo lugar, torna-nos conscientes do irmão, das suas lutas e das suas dores: é um momento sublime de caridade; e o amor recíproco é o sinal inequívoco de pertença ao Reino de Deus (Jo 13,34-35), a tal ponto que Jesus assegura a sua presença salvífica onde existe caridade fraterna: “Se dois de vós concordarem na terra a respeito de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mt 18,19-20).
Rezar pelo outro é, assim, um ato de amor que acelera misteriosamente a consumação do seu encontro com Jesus Salvador, que é a autêntica resposta a toda prece.
Este ato de amor não é uma mera recordação formal, mas um assumir o irmão em caridade: interceder por alguém significa colocar-se na presença de Deus para que Ele nos ilumine sobre o que nós próprios podemos realizar pelo próximo. E Jesus concede-me vigor para praticar pelo irmão necessitado aquilo mesmo que por ele suplico. É por este motivo que certas comunidades optam por substituir a fórmula tradicional “Oremos por…” pelo termo “Diante de Deus, recordamos…”: na oração, perante o Senhor, assumo as minhas responsabilidades perante as circunstâncias dos irmãos e peço a graça de ser, para eles, sinal tangível do amor divino.
A intercessão de Maria e dos Santos
Que sentido existe em pedir a intercessão de Maria, de um santo ou de um irmão exemplar na fé? Implorar a sua oração por nós faz crescer a caridade na Igreja, revigora a comunhão dos santos — vivos e falecidos — e traduz o pedido para que a Virgem ou os nossos irmãos mais fiéis caminhem connosco, auxiliando-nos a acolher a vontade amorosa de Deus com o seu exemplo e ternura, a fim de estarmos unidos a Cristo e cheios do seu Espírito. Além disso, invocar os Santos implica reconhecer a nossa condição de pecadores, necessitados da misericórdia do Senhor: esse é o primeiro passo para dilatar o coração e abraçar a absoluta gratuidade do Amor de Deus.
Portanto, ao pedir a um irmão: “Reza por mim!”, estou a proclamar: “Permanece ao meu lado, cultiva comigo um laço de caridade que torne o Senhor mais vivo no meu quotidiano, sustenta-me com o teu exemplo e amizade para aceitar o plano de Deus”. E quando peço a intercessão da Virgem Maria ou de um Santo, digo-lhes no coração: “Que a comunhão convosco me ajude a experimentar o amor de Deus e torne Jesus uma presença viva no meu ser; sede modelo e apoio para que eu acolha o mistério divino e mantenha inabalável a confiança na sua bondade sem fim; peço a vossa ajuda porque creio na comunhão dos santos, que impulsiona o crescimento na fé e no amor de toda a Igreja; e perante o vosso luminoso testemunho, reconheço com sinceridade a minha pequenez, as minhas faltas e a urgência da salvação plena que só Deus pode dar”.
Rezar é, portanto, responder com amor Àquele que é o próprio Amor (1 Jo 4,8) e que nenhuma outra coisa nos dá senão Amor.
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