Visitar os presos: a obra de misericórdia através da arte

16 de Junho, 2024

O Banho Penal de Portoferraio
O Banho Penal de Portoferraio, de Telemaco Signorini

A obra de misericórdia corporal “visitar os presos” vista através das pinturas de alguns artistas

O que se passa na mente de um encarcerado podemos imaginar: arrependimentos, ódio, culpas, afetos; mas o que se passou na mente e no coração de São Pedro enquanto esteve no cárcere, jamais poderíamos imaginar.

Certamente a sua fé no auxílio divino por intermédio do seu amigo e mestre Jesus nunca o havia abandonado, contudo receber a visita de um anjo deve ter sido algo maravilhosamente inesperado.

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Esta obra de misericórdia foi retratada, ainda que com diferentes intenções, por Rafael Sanzio nas salas do Vaticano. A obra intitula-se “A Libertação de São Pedro do Cárcere” e foi realizada na Sala de Heliodoro entre 1513 e 1514 por Rafael, já aclamado pelos críticos da época como “o Pintor”, isto é, aquele que pinta por graça divina, por dom natural e atinge a perfeição.

A poucos metros de distância, na Capela Sistina, trabalhava Michelangelo, a quem Rafael admirava profundamente. Contudo, ao tormento, à dúvida e à angústia de Michelangelo, ele contrapôs a harmonia de conjunto oriunda da sua própria visão de um mundo ordenado pela graça de Deus, a quem atribuía todo o sucesso e a quem seria sempre serenamente grato.

O espaço da sala concedido ao autor era limitado por uma janela, mas Rafael conseguiu compor o cenário com tanta maestria arquitetônica que nos faz perceber apenas a beleza do episódio sagrado (Atos 12, 5-12).

No centro da composição, por trás das grades, o resplendor do anjo, sinal da intervenção divina, destaca o brilho das armaduras de metal dos guardas adormecidos. À direita, sob o amparo do anjo, Pedro, com um semblante resignado e ferido pela dureza da prova, vê caírem as correntes, atravessa os guardas imersos num sono sobrenatural e caminha rumo à liberdade: é a certeza do milagre cumprido.

O que torna essa obra tão admirável é a multiplicação de focos de luz pelo quadro: a fria luz branca do quarto crescente entre as nuvens, a aurora avermelhada no horizonte e o clarão das tochas. Essas luzes rompendo as trevas da cela, a luminosidade do anjo demonstrando a misericórdia de Deus e cada detalhe cuidadosamente elaborado conferem à narrativa um tom realista, vivo e intensamente comovente.

De tom inteiramente distinto é a prisão de Portoferraio de Telemaco Signorini (1835-1901), pintor macchiaiolo toscano, que retrata prisioneiros perfilados perante um grupo de visitantes, tela pintada entre 1893 e 1894, atualmente no Palácio Pitti.

Os prisioneiros acham-se formados em duas fileiras paralelas e opostas, abrindo passagem a um pequeno grupo de guardas e autoridades seguros da sua autoridade. As algemas nos pulsos, os uniformes desgastados e os semblantes marcados pela submissão forçada evidenciam a profunda opressão da sua realidade.

Para ilustrar a visita aos encarcerados de Portoferraio com realismo fiel, Signorini colocou na primeira fila o conhecido bandoleiro lucano Carmine Crocco. A luz reforça a carga dramática ao conduzir o olhar ao centro da sala despojada, para homens alinhados em perspectiva, desprovidos de defesa e homogeneizados pela pena. Elimina-se assim qualquer pormenor secundário para acentuar a inexorabilidade da sentença imposta, por vezes injustamente, pela sociedade ao indivíduo.

A penosa situação social, moral e física vivenciada durante séculos nos presídios coloniais — abolidos pela comissão Ricasoli em 1862 e pelo ministro Zanardelli em 1891 — já no século XVI motivara intervenções papais sucessivas.

No fim do século XVI, o pontífice instituiu um comissário para zelar pelos direitos do preso, determinando a oferta de amparo espiritual elementar: “Haja imagens de N. S. Jesus Cristo, da Gloriosíssima Virgem Maria e dos santos … zelando para que se confessem e comunguem … entregando-lhes um terço bento” (V. Paglia 1980).

A tela de Signorini já não reflete as prisões contemporâneas, mais modernas e permissivas, contudo o sofrimento dos reclusos persiste. Timothy Schmalz, escultor contemporâneo, impressiona por suas criações plásticas reconhecidas internacionalmente como sinais de alerta. A obra de misericórdia de visitar os encarcerados foi por ele sintetizada numa escultura que prescinde da figura humana completa.

Os dois braços estendidos para fora, impedidos em seus movimentos pelas grossas barras de ferro, transmitem mais dor do que qualquer semblante. São as mãos chagadas do Cristo chamando à Misericórdia; é um pedido de socorro mais eloquente que qualquer discurso, capaz de quebrar a dureza dos corações.

Os encarcerados, tantas vezes estigmatizados, clamam frequentemente pelo perdão, como na prece de um detento da prisão de Regina Coeli em Roma, redigida em 1958 e reproduzida na abertura do livro “A Igreja no Cárcere”, de Antonio Parente: “Fazei com que a justiça dos homens proceda da Vossa divina justiça e que a pena que padecemos seja expiação das culpas que só Vós conheceis e das quais só Vós nos redimis … Devolvei-nos a honra, reatare os laços de amor, consolai os nossos entes queridos, apressai o dia da nossa libertação”.

Esta obra de misericórdia proposta pela Igreja figura entre as mais difíceis de realizar, contudo, sendo infinitos os caminhos do Senhor, podemos encontrar vias até os presídios, especialmente com o suporte do capelão, levando assistência moral e espiritual a estes nossos irmãos desfavorecidos.

Imagem de capa: Wikipédia

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