Perdoar para ser perdoado
Leituras: Sir 27,30-28,7; Rm 14,7-9; Mt 18,21-35
A infinita misericórdia de Deus chega a todos, sem exceções, em absoluta gratuitidade. Mas então por que razão, na oração que Jesus nos ensinou, devemos dizer: “Perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12)? Por que razão “assim como nós perdoamos aos nossos devedores”? Por que razão o perdão de Deus está condicionado ao nosso perdoarmo-nos uns aos outros? Com frequência parecer-nos-ia mais honesto rezar: “Perdoa-nos as nossas dívidas muito, mas muito mais do que nós perdoamos aos nossos devedores!”…
O texto de Mateus diz: “assim como nós (òs kaì emèis) perdoamos (aphékamen toìs ophelétais emòn)” (Mt 6,12). É uma formulação estranha: o tempo está no aoristo, que indica uma ação passada, e portanto a frase deveria ser traduzida: “assim como nós também perdoámos aos nossos devedores”: o perdão aos irmãos deve até preceder o perdão de Deus. Mas não está excluído que possa tratar-se de um “aoristo dramático”, com valor de presente: “como nós costumamos perdoar aos nossos devedores”.
A tradição sempre rezou com a versão de Mateus. A Igreja, na última tradução da Bíblia, não ousou afastar-se da oração segundo Mateus, que talvez seja também a mais antiga, mas indubitavelmente condicionada pelo público deste evangelista, que escrevia para os Judeus, tão ligados às “obras” da Lei. Permaneceu, portanto, a versão mateana oficial, com a única precisão do “também” (òs kaì), já presente no texto grego, que em certa medida tenta ligar o nosso agir ao preveniente agir de Deus: Deus perdoa-nos e “também” nós perdoamos.
De facto, nunca esquecemos que o perdão de Deus precede sempre a nossa reconciliação com o próximo. Parece explicar isto mais adequadamente o “Pai-Nosso” do Evangelho de Lucas, que reza: “Perdoa-nos os nossos pecados, porque também nós (kaì gàr autoì) perdoamos (aphìomen) a todos os nossos devedores” (Lc 11,4).
Fica mais claro, em relação ao texto mateano, que a nossa capacidade de perdoar aos irmãos deriva (“porque também”) do facto de Deus nos perdoar primeiro os pecados: portanto usa-se simplesmente o presente, “perdoamos”, e não o aoristo como em Mateus.
O texto litúrgico rezado na Missa permanece, portanto, em si difícil, e mais uma vez nos mostra como se deve estudar com amor toda a Escritura, compreendendo aqui o género literário semítico do paradoxo (tantas vezes presente na Bíblia), e como cada versículo deve ser lido na totalidade do texto sagrado.
Em todo o caso, o verdadeiro amor a Deus é sempre o amor pelos irmãos: “E este é o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1 Jo 4,21); “Se, portanto, apresentares a tua oferta no altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e depois vem apresentar a tua oferta” (Mt 5,23-24).
Por várias vezes Jesus explicita esta lógica: “Perdoai e sereis perdoados…, porque com a medida com que medirdes sereis medidos vós também” (Lc 6,36-38); “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará; mas se não perdoardes aos homens, tampouco o vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6,14-15).
A relação entre ser perdoado e perdoar é, portanto, estreitíssima. A falta de pacificação com os outros anulará a misericórdia de Deus. Jesus explica claramente esta dinâmica na parábola do servo impiedoso, a quem o Senhor perdoa uma dívida imensa (dez mil talentos, uma soma exorbitante), e que não sabe perdoar uma pequena dívida de outro servo (cem denários: em proporção à primeira soma, uma ninharia (Mt 18,23-35).
Estamos diante de um mistério. O amor de Deus precede-nos: o seu amor é gratuito, e chega-nos enquanto somos pecadores, não perdoadores. E se cada um de nós esperasse para se apresentar a Deus apenas quando estivesse plenamente reconciliado com todos os irmãos, nunca iríamos à sua presença. E isto deve ser muito claro. Mas o imenso Amor de Deus bloqueia-se se o nosso coração não estiver aberto aos irmãos. Um coração fechado ao próximo trava a omnipotência de Deus.
Disse o Papa Francisco: “Deus perdoa sempre, sempre. Mas pede que eu perdoe. Se eu não perdoar, em certo sentido fecho a porta ao perdão de Deus”.

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