Um capítulo de cada vez do livro de Nino Savarino, Provedor da Misericórdia de Rosolini, amigo de spazio + spadoni e colaborador de diversos projetos e do blog.
Do Salmo 15 (14)
Senhor, quem habitará na tua tenda? Quem residirá no teu santo monte?
Aquele que caminha com integridade, pratica a justiça e fala com lealdade,
não difama com a língua, não prejudica o seu próximo
e não ultraja o seu vizinho.
Acolhamos o irmão. Vivamos juntos sob a mesma tenda
Dizia o Papa Francisco: “O amor faz-nos tender para a comunhão universal. Ninguém amadurece nem alcança a sua plenitude isolando-se. Pela sua própria dinâmica, o amor exige uma abertura progressiva, maior capacidade de acolher os outros, numa aventura sem fim que faz convergir todas as periferias para um pleno sentido de pertença mútua.
Jesus disse-nos: «Vós sois todos irmãos» (Mt 23,8)” (FT, 95).
O acolhimento é uma expressão do amor, desse dinamismo de abertura que nos leva a fixar a atenção no outro, a buscar o melhor para a sua vida (cf. FT, 91-94) e que, na sua pureza, é a caridade infundida por Deus.
Na medida em que se deixa permear por esta atitude de abertura e acolhimento, uma sociedade torna-se capaz de integrar todos os seus membros, inclusive aqueles que, por vários motivos, são “estrangeiros existenciais” ou “exilados ocultos”, como por vezes se encontram as pessoas com deficiência ou os idosos (cf. FT, 97-98).
“Acolher significa preparar um espaço digno, mas sobretudo dispor-se à escuta da diversidade do outro, que se torna riqueza.
A escuta implica a suspensão do juízo, isto é, a renúncia ao preconceito para se abrir ao conhecimento de si e dos outros, que gera o diálogo”.
Quantas vezes, ao ouvir as notícias, ficámos comovidos diante de tantos migrantes mortos no mar.
“Coitadinhos”, dizíamos, enquanto continuávamos a jantar.
Quantas vezes, ao ouvir o noticiário, concordámos com quem diz que é melhor que o estrangeiro fique na sua própria terra.
Assunto delicado.
O curioso é que, se o forasteiro for branco e não vier de África, já não é tão forasteiro assim. Contudo, se for de cor, africano e porventura de outra religião, então é mais do que um forasteiro: é visto como um corpo estranho.
Assunto delicado.
Porque mesmo quando o migrante mora ao teu lado, continua a ser “outro” relativamente a ti, ao teu círculo de amigos.
É o receio da diferença e da diversidade.
Talvez tenha chegado verdadeiramente o momento de nos conhecermos sem receio e abrirmos a nossa tenda.
A nossa viagem será maravilhosa se pensarmos que também nós somos estrangeiros para os outros e que, sob a mesma tenda, somos todos irmãos e filhos do mesmo Deus.
O que podemos fazer concretamente?
Dar pousada aos peregrinos
Um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te avise; pois Herodes vai procurar o menino para o matar» (Mt 2,13). A fuga da Sagrada Família para o Egito não resultou de uma escolha livre, como não o foram muitas das migrações que marcaram a história do povo de Israel.
Migrar deveria ser sempre uma escolha livre, mas, na realidade, em muitíssimos casos, ainda hoje não o é.
Conflitos, catástrofes naturais ou simplesmente a impossibilidade de viver uma vida digna e próspera na terra natal obrigam milhões de pessoas a partir.
Já em 2003, São João Paulo II afirmava que «construir condições concretas de paz, no que diz respeito aos migrantes e refugiados, significa comprometer-se seriamente em salvaguardar, antes de mais, o direito a não emigrar, isto é, a viver em paz e dignidade na sua própria pátria».
Mensagem do Papa Francisco para o 109º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado 2023.
Pontos de reflexão
Ele levantou os olhos e viu três homens de pé junto a ele. Logo que os viu, correu ao seu encontro desde a entrada da tenda e prostrou-se por terra, dizendo: «Meu senhor, se encontrei graça aos teus olhos, não passes sem te deter junto do teu servo. Traga-se um pouco de água, lavai os pés e descansai debaixo da árvore. Permiti que traga um bocado de pão e reconfortai o coração; depois podereis prosseguir, pois foi para isso que passastes pelo vosso servo» (Gên 18, 2-5).
Fonte e imagem: Nino Savarino, “Testemunhas da misericórdia”, 46-50

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