Hoje em dia, é evidente, só pensamos no que vestir. E se não temos aquele par de sapatos da Nike ou da Adidas, ficamos chateados. Comprar e comprar roupas que saem de moda passados dois meses! Enquanto isso, há pessoas que, na sua extrema penúria, consideram um guarda-roupa completo o simples facto de terem alguns trapos para vestir!
“Se alguém despe uma pessoa vestida, é chamado de ladrão. E quem deixa de vestir o nu quando tem condições de fazê-lo, mereceria outro nome? O pão que guardas para ti pertence ao faminto; a capa que conservas no armário pertence ao nu; os sapatos que apodrecem na tua casa pertencem ao descalço; a prata que manténs enterrada pertence ao necessitado” (São Basílio Magno, 330 d.C.)
Particularmente incisiva é a exortação de São João Crisóstomo: «Quereis honrar o corpo de Cristo? Não o ignoreis quando ele se encontra nu. Não lhe presteis homenagens aqui no templo com tecidos de seda, para depois o abandonardes lá fora, onde padece frio e nudez».
Do Gênesis até hoje
Nas Sagradas Escrituras, o ato humano de vestir quem está nu fundamenta-se no gesto primordial do próprio Deus, que cobriu a nudez humana preparando vestes e cobrindo Adão e Eva após a sua transgressão: “O Senhor Deus fez túnicas de peles para o homem e a sua mulher, e os vestiu” (Gn 3,21).
A transgressão do ser humano no jardim das origens provocou a rutura com a comunhão plena e fê-los tomar consciência da sua “nudez”, isto é, da sua condição frágil e limitada. Começaram a sentir desconfiança e receio mútuo, e a alteridade passou a ser sentida como uma ameaça.
Por essa razão, Adão e Eva “entrelaçaram folhas de figueira e fizeram tangas para si” (Gn 3,7). Mas será apenas quando o próprio Deus lhes fizer túnicas de pele e os vestir (cf. Gn 3,21) que verão a sua dignidade restabelecida, a sua fragilidade acolhida pela misericórdia divina e as suas limitações protegidas e cobertas.
Partilhar as vestes com o pobre é um gesto íntimo que requer delicadeza, discrição e ternura. Relaciona-se de forma direta com o corpo do próximo, cuja singularidade se revela de maneira máxima no rosto. O rosto permanece nu, descoberto, e com a sua vulnerabilidade recorda a fragilidade de todo o corpo e de toda a pessoa humana.
Partilhar agasalhos com o irmão necessitado — não de maneira fria e impessoal como uma remessa de donativos anónimos, mas no encontro frente a frente — torna-se expressão viva de caridade e celebração da gratuidade. Trata-se de um encontro em que aquele que reparte não empobrece, antes enriquece com a alegria do convívio fraterno, e aquele que recebe não é diminuído nem humilhado: acolhido na sua dignidade humana, sente-se reconhecido na sua necessidade como pessoa singular.
O gesto de vestir na tradição cristã
Na tradição cristã ocidental, este gesto é expressivamente ilustrado pelo episódio em que Martim de Tours corta a sua própria capa militar para partilhá-la com um mendigo no rigor do inverno. Escreve Venâncio Fortunato na sua Vida de São Martim de Tours:
“Encontrando às portas de Amiens um pobre homem que a ele recorria, Martim divide em partes iguais a proteção do seu manto e, com fé ardente, coloca-o sobre os membros enregelados. Um recebe a sua parte do frio, o outro partilha o calor; entre ambos divide-se o calor e a friagem. O frio e o calor convertem-se numa nova dádiva mútua, e uma única pobreza repartida mostrou-se suficiente para dois homens.”
No final do século IV, no Oriente cristão de tradição siríaca, a celebração batismal incluía o rito em que o neófito se despojava das suas roupas e as calcava aos pés; seguia-se a unção corporal, a imersão na nudez nas águas da pia batismal e, por fim, ao sair da água, a entrega solene de uma veste branca imaculada.
A nudez gloriosa de Cristo crucificado (despojado de tudo na cruz como sinal de opróbrio) e ressuscitado cobre e reveste o novo batizado que renasce para uma vida nova: “Pois todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27). Revestidos de Cristo no batismo, conscientes da vulnerabilidade da condição humana, os fiéis sabem-se imersos na compaixão e graça divina (Tt 2,4-5). Assim, as suas obras de amor para com quem padece vergonha, frio e exclusão tornam-se testemunho luminoso da misericórdia de Deus. (Luciano Manicardi)
«E por que vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam… contudo, digo-vos que nem Salomão, em todo o seu esplendor, se vestiu como um deles! Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, não fará muito mais por vós, gente de pouca fé? Portanto, não andeis preocupados, dizendo: “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Com que nos havemos de vestir?”. Os pagãos é que procuram incessantemente todas estas coisas. O vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade delas. Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será acrescentado» (Mt 6,28-33)
Oração do cardeal Joseph Ratzinger
Senhor Jesus, fostes despojado das vossas vestes, exposto à humilhação e banido da convivência humana.
Tomastes sobre vós a vergonha de Adão, curando-a.
Revestistes-vos das dores e carências dos desamparados, daqueles que são postos à margem do mundo.
Mas é precisamente assim que dais sentido àquilo que parecia destituído de valor.
É deste modo que nos fazeis reconhecer que o vosso Pai sustenta nas suas mãos a vós, a nós e a toda a criação.
Concedei-nos um profundo respeito pela pessoa humana em todas as fases da sua vida e em cada encontro que tivermos.
Dai-nos a veste luminosa da vossa graça.
Ilustração da irmã Marie-Anastasia Carré (Communauté des Béatitudes)

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