Com os olhos da Arte: Suportar as pessoas incômodas

14 de Julho, 2024

Cristo e a Cananeia
A pintura de Jean-Germain Drouais, Cristo e a Cananeia (1784)

A Obra de Misericórdia espiritual «suportar com paciência as pessoas incômodas» no Antigo e no Novo Testamento

As Obras de Misericórdia são ações recomendadas pela Igreja para o bem de quem as pratica e de quem as recebe. Todas situam-se no mesmo patamar, como a linha do horizonte em direção à qual devemos caminhar.

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Costuma-se dizer que a paciência é a virtude dos fortes e que as pessoas incômodas estão por toda parte. O grande desafio reside na palavra que une a paciência às pessoas incômodas: suportar! O Antigo e o Novo Testamento contêm ensinamentos abundantes sobre esse tema, e não é simples escolher um em detrimento de outro, pois todos nos proporcionam caminhos valiosos para vencer a barreira da aversão.

Entre os luminares da história bíblica, Moisés destaca-se por não apenas ter tolerado as hesitações incessantes e as queixas amargas do seu povo, mas também por ter respondido, com o auxílio divino, concedendo-lhes muito além do que pediam. Durante a caminhada pelo deserto, o povo desanimou e murmurou contra Deus e contra Moisés; em resposta, serpentes venenosas foram enviadas entre o povo e picaram os israelitas, provocando muitas mortes.

Deus, contudo, tocado pelo arrependimento do povo e pela súplica de Moisés, ordenou que se fizesse uma serpente de bronze sobre uma haste elevada; com isso, quem fosse picado e fitasse a serpente de bronze permanecia vivo.

Na Capela Sistina, obra-prima colossal de Michelangelo, poucos talvez tenham reparado, em um dos tímpanos da abóbada, na cena alusiva a essa passagem.

Moisés ergue a serpente de bronze justamente para preservar os hebreus, a despeito da ira persistente e explícita demonstrada contra ele e Aarão, retribuindo o incômodo com um grandioso ato de misericórdia. Michelangelo soube evidenciar o drama e os espasmos daqueles que foram atingidos pelos répteis, retratando a contorção de corpos em luta para desvencilhar-se das feras por meio de tonalidades claras e luminosas, com harmonizações delicadas, enquanto ao centro sobressai, envolta em suave luminosidade, a longa haste com a serpente de bronze que assegura a salvação.

O Evangelho, além de nos apresentar o abraço afetuoso de Jesus às crianças barulhentas e a parábola da viúva persistente diante do juiz severo, relata o comovente encontro de Jesus com a mulher cananeia.

Foi Drouais, nascido em Paris em 1763 no seio de uma família de pintores, quem conquistou o prestigiado Prix de Rome em 1784 com a tela «Cristo e a mulher cananeia», hoje no Louvre, transmitindo com mestria esse episódio. A composição assemelha-se a um drama teatral, dada a expressividade dos contrastes de luz que incidem sobre os personagens.

Da penumbra do fundo destaca-se a imagem do Cristo que, respondendo aos discípulos, exterioriza sua relutância diante dos apelos da cananeia. O gesto enérgico de Jesus ao afastar momentaneamente a mulher, que prostrada de joelhos suplica por compaixão, poderia sugerir uma recusa ríspida; no entanto, revela-se um convite à perseverança na oração. Enquanto os demais se distanciam abrindo espaço ao redor, apenas o ancião intercede junto a Cristo.

Movida pelo amor à filha, essa mãe não fraqueja, não se afasta ofendida nem murmura contra o Mestre: persevera em sua prece e alcança não só a cura almejada, mas também o louvor de Jesus por sua fé inabalável. Ganha realce, assim, a ampla abertura superior que desvela uma paisagem na qual desponta um templo majestoso, quase dissolvido na claridade matinal.

Portanto, esses testemunhos colhidos nos relatos do Antigo e do Novo Testamento devem impulsionar-nos a vivenciar esta Obra de Misericórdia que somos chamados a exercitar no cotidiano, transformando o atrito interpessoal em caridade acolhedora.

Superando todos os exemplos repousa, naturalmente, o terno abraço concedido por Jesus às crianças inquietas que perturbavam a multidão e os discípulos — um gesto que bastaria para apaziguar as pequenas contrariedades provocadas por pessoas incômodas.

Foto: Wikipedia

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