Uma obra de misericórdia por semana com… Carlo Miglietta | 5. VISITAR OS DOENTES

3 de Outubro, 2025

Carlo Miglietta
O comentário de Carlo Miglietta sobre a quinta obra de misericórdia corporal
O comentário do biblista Carlo Miglietta sobre a quinta obra de misericórdia corporal: « Visitar os enfermos »

Jesus foi indubitavelmente um extraordinário taumaturgo: “Trouxeram-lhe todos os doentes… Curou muitos que se achavam acometidos de diversas moléstias…” (Mc 1,32-34); “E, onde quer que ele entrava, nos povoados, nas cidades ou nos campos, punham os doentes nas praças e rogavam-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla do seu manto; e todos os que nele tocavam ficavam curados” (Mc 6,56). Entre os doentes, duas categorias marginalizadas e consideradas tabu no judaísmo ocupavam lugar de destaque no coração de Jesus: os leprosos (Mc 1,40-44) e os “endemoninhados”, muito provavelmente doentes psiquiátricos (Mc 1,21-28; 5,1-20; 7,24-30; 9,14-26).

Contudo, as admiráveis curas realizadas por Jesus não representavam apenas um alívio pontual para os beneficiados: constituíam sobretudo a manifestação de sua dignidade salvífica e do cerne de sua missão. Ele viera para aniquilar o poder do mal e da morte, e seu triunfo começava precisamente no encontro com as limitações da humanidade ferida. Por essa razão, Marcos designa esses atos com a palavra dynamis, poder ou força (Mc 6,2.5.14; 9,39), e nunca com os termos sèmeion (sinal com fins de autopromoção) ou tèras (prodígio prodigioso).

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Os milagres evangélicos não são demonstrações para provar a divindade de Jesus, mas revelações comoventes do desvelo divino para com os enfermos. Somente à luz do mistério da Páscoa são contemplados como antecipação da glória de Deus manifestada na ressurreição. Compreende-se, assim, a centralidade da fé pedida a cada enfermo: “A tua fé te salvou”, diz Jesus à mulher com fluxo de sangue e ao cego de Jericó (Mc 5,34; 10,52); “Tudo é possível àquele que crê” (Mc 9,22-24). Jesus reafirma que a salvação plena nasce da união de amor com a sua pessoa, sendo a cura física o sinal visível da reconciliação total da criação realizada pela sua encarnação.

O Filho de Deus não apenas se compadece de quem sofre: ele assume a nossa condição frágil, carregando em si as nossas dores. Diante do sofrimento alheio, Jesus “move-se de compaixão” (Mc 1,41; 6,34; 8,2; Mt 9,36; 14,14; 20,34; Lc 7,13); e, diante do túmulo de um amigo querido, “chorou” copiosamente (Jo 11,33-38).

Mediadores da salvação

O discípulo é convidado a estender a presença viva do Filho de Deus no mundo, tornando-se testemunha tangível do seu amor e primeira fonte de conforto para os atribulados.

Somos o sacramento visível do Salvador para os que padecem: os nossos passos tornam-se os passos com que Jesus visita o enfermo, os nossos braços o seu amparo acolhedor, a nossa palavra a consolação com que ele anuncia a redenção. O cristão torna-se intercessor e mediador da salvação fraterna. Ele caminha junto ao sofredor para mitigar suas dores por todos os meios possíveis, prestando uma solidariedade atenta e cheia de ternura. Com frequência, a solidão é a maior dor enfrentada na enfermidade, e a companhia afetuosa torna-se verdadeiro bálsamo.

Deste modo, a doença e a morte deixam de ser um drama suportado em segredo para serem vividas na comunhão familiar, eclesial e comunitária: a caridade e a fraternidade, nascidas do encontro com Cristo, dão esperança às horas difíceis. O cristão auxilia o irmão doente a preservar sua dignidade e autonomia, vivendo cada etapa de sua fragilidade com profunda serenidade interior.

Nesse horizonte, deve-se sempre agir com verdade e delicadeza diante do enfermo, sem nunca extinguir a esperança de restabelecimento físico, que o saber médico reconhece possível até em quadros desafiadores.

Por fim, o crente faz-se próximo partilhando o dom mais precioso: a graça de Jesus Cristo (At 3,6). Ao doente anuncia-se a Boa-Nova da esperança, da ressurreição e da paz, invocando o nome bendito do Salvador, resposta verdadeira para o enigma da existência e da dor.

Assim, o cristão conduz a pessoa fragilizada ao encontro de Deus por meio da oração confiante, da escuta atenta da Palavra e da vivência dos Santos Sacramentos.

Curar os enfermos

O seguidor do Evangelho deve dedicar sua caminhada ao combate incansável contra as causas do sofrimento. Fomos alcançados pela graça para salvar, sarados para restaurar, consolados para consolar os outros (2 Cor 1,3-4).

A cura das enfermidades é um dos sinais autênticos confiados por Cristo aos seus enviados: “Reunindo os doze discípulos, deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos para expulsá-los e curar todas as moléstias e enfermidades” (Mt 10,1; Mc 6,13; 16,17-18).

O Novo Testamento ensina gestos fraternos e orantes, destacando a imposição das mãos a exemplo do Mestre: “Ao pôr do sol, todos os que tinham enfermos de várias doenças os traziam a ele; e ele impunha as mãos sobre cada um e os curava” (Lc 4,40). Entre as manifestações dos que creem (Mc 16,17), ele promete: “imporão as mãos sobre os enfermos e eles serão curados” (Mc 16,18).

Outro sinal deixado pelos apóstolos é a unção dos doentes com óleo benzido; os Doze, enviados pelo Mestre, “expulsavam muitos demônios, ungiam com óleo numerosos doentes e os curavam” (Mc 6,12).

Na Igreja, o sacramento dedicado aos doentes une a oração fraterna, a imposição das mãos e o óleo sagrado, conferindo forças renovadas a quem sofre: na Unção dos Enfermos, a reconciliação e a confiança no Senhor renovam as energias do corpo e da alma. Ensina o apóstolo Tiago: “Algum de vós está doente? Chame os presbíteros da Igreja, e estes orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente, e o Senhor o restabelecerá; e, se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (Tg 5,14-15).

O apóstolo Paulo recorda que, dentre os múltiplos dons concedidos pelo Espírito Santo para a edificação comum (1 Cor 12,1.7), encontra-se o “dom de curar” (1 Cor 12,9.28.30).

Em que consiste essa vocação?

Importa notar que Paulo diferencia o dom de curas do poder de realizar milagres extraordinários (1 Cor 12,7-10.28-30). O dom de curar traduz-se no zelo constante e no trabalho perseverante para combater as moléstias, fazendo uso dos avanços salutares da ciência humana. O livro do Eclesiástico já exortava a honrar o médico, instrumento sábio colocado por Deus a serviço da vida (Eclo 38,1-15).

Em outras situações, a graça atua na oração fervorosa: “A grande maioria dos restabelecimentos atuais não decorre de prodígios fulminantes. Muitas vezes a prece desfaz os nós interiores da alma — ressentimentos, rancores, medos, ansiedade e angústias — devolvendo a paz ao coração. A oração desperta as defesas naturais da pessoa, favorecendo uma recuperação célere” (M. Iragui). Rezar com o doente aproxima-o do amor divino, transformando-se em fonte perene de alívio e renovação integral.

“Isto não afasta a realidade de curas prodigiosas concedidas diretamente pela infinita misericórdia do Pai” (M. Iragui). Seja como for, a maior missão confiada ao cristão é anunciar o milagre fundamental da história: o Filho que abraçou as nossas feridas para nos conceder a vitória eterna da ressurreição. Podemos pedir alívios terrenos, mas o dom superior é a entrega confiante ao querer do Pai, que nos entregou seu próprio Filho: a aceitação serena desse amor providente é o único caminho perene de libertação e cura verdadeira para todo ser humano.

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