A obra de misericórdia de dar de beber aos sedentos na arte sacra

12 de Abril, 2024

A obra de misericórdia corporal «dar de beber aos sedentos» contemplada através de grandes mestres da pintura.

Jacopo Robusti, o Tintoretto, e a água brotando da rocha

Jacopo Robusti (Veneza 1518-1594), conhecido como Tintoretto, insigne mestre italiano, preferiu desde cedo elaborar composições monumentais, dispondo numerosas figuras em cenários arquitetónicos complexos e expressivos.

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Mercê do seu talento invulgar, foi convidado a decorar a Scuola Grande di San Rocco em Veneza. Uma das missões da instituição consistia em saciar a sede dos desfavorecidos da cidade; foi no teto de um dos grandes salões que pintou, cerca de 1577, a passagem bíblica de Moisés a fazer brotar água da rocha.

No centro da composição, Moisés ergue o bordão e fere o rochedo, de onde emana uma fonte abundante e cristalina. Em baixo, homens e animais aproximam-se sofregamente com ânforas para recolher a água. Moisés, exibindo robustez física que simboliza firmeza espiritual, eleva o olhar confiante a Deus, que entre as nuvens consente o milagre e alivia a penúria do povo peregrino. O protagonista supremo é o Criador, que não guarda ressentimento pelas fraquezas humanas, mas usa de compaixão e atende à súplica perseverante de Moisés. O claro-escuro acentuado, as cores vigorosas e a cenografia dramática amplificam a intensidade da narrativa. Contrapondo-se à tensão mística de Tintoretto, emerge o lirismo sereno de outro mestre renascentista.

Paolo Veronese e o colóquio com a samaritana junto ao poço

Coube a Paolo Caliari (1528-1588), cognominado o Veronese, assinar uma das mais admiráveis representações do encontro entre Cristo e a samaritana (1585).

Resguardada num museu de Viena, a obra reflete com profundidade o cerne do texto evangélico: a força transformadora do diálogo.

Jesus senta-se junto ao poço e a mulher, envergando trajes vívidos, aproxima-se. Ao fundo, descortina-se uma paisagem frondosa e luminosa, na qual regressam os discípulos trazendo provisões.

O gesto de Cristo revela cansaço e sede ao solicitar água, enquanto a mulher se prepara para encher o seu cântaro. Nasce assim o diálogo salvífico entre o Redentor e uma figura estigmatizada pela sociedade.

Com delicada mansidão originada na misericórdia, Jesus convida-a a refletir sobre as suas ilusões e fragilidades existenciais, desvelando-lhe a Verdade: «eu sei que o Messias há de vir. Eu sou o Messias». O testemunho da mulher levou muitos conterrâneos a acolherem a fé. A serenidade fisionómica de Jesus e a escuta compenetrada da jovem unem-se numa paleta luminosa que enaltece o amor redentor.

Giotto di Bondone e o milagre da fonte em Assis

No século XIV, a pintura assumiu papel catequético determinante. Essa obra de misericórdia foi retratada por Giotto di Bondone (1267-1337), mestre florentino, no «milagre da fonte», afresco pertencente ao ciclo monumental da Basílica Superior de Assis.

Descendo dos montes toscanos, Giotto iniciou a sua trajetória em Assis sob a orientação de Cimabue. Ali privou com artistas romanos e conviveu com a comunidade franciscana, absorvendo o carisma de são Francisco.

Giotto transformou-se no grande arauto plástico dos valores franciscanos: pobreza, contemplação e misericórdia compassiva. Daí o encargo confiado pelos frades, poucas décadas após o trânsito do fundador, para decorar a Basílica.

Na composição, o homem sedento não recebe água diretamente das mãos de Francisco; surge no plano inferior direito para que a contemplação se dirija ao ato essencial: o santo em oração.

Francisco de Assis, condoído com a sede extenuante do jovem viajante, ajoelha-se no chão rochoso e implora a clemência celeste. Duas montanhas escarpadas e vegetação rarefeita acentuam a aridez do deserto, realçando a água límpida que jorra da pedra dura.

À esquerda, os frades e o asno entreolham-se em pasmo e júbilo; à direita, o jovem debruça-se apressado sobre a vertente para saciar a sede, alheio à grandeza mística do momento.

Giotto consagra o louvor às criaturas — à terra, à água, aos seres vivos — como reflexos da Providência divina. O triângulo cerúleo do firmamento aponta simbolicamente para o santo penitente, enquanto contornos nítidos individualizam reações interiores: a paz do santo, o assombro dos frades e a carência urgente do rapaz. Deus surge como fonte de graça que sacia os aflitos e fortifica os humildes.

Um apelo solidário para os dias de hoje

Estas obras universais convocam-nos ao compromisso prático. Na atualidade, não se exige fazer brotar água de pedregulhos, mas estender as mãos fraternas em socorro daqueles que sofrem escassez, sobretudo nos territórios mais abandonados do planeta.

Imagem de capa: O milagre da fonte 14, de Giotto (Wikipédia)

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