Padre Ferdinando Colombo: Acolher os peregrinos

4 de August, 2024

Le opere di misericordia_

Migrantes, refugiados, migrantes econômicos, desalojados

O fenômeno a que assistimos assemelha-se a uma onda imprevista e incontrolável, que brota do Sul e do Leste do Mediterrâneo para arrebentar nas costas europeias. Há quem sustente a urgência de erguer muros e cercas farpadas, acobertando-se em alarmismos econômicos e receios infundados. Outros, em contrapartida, dedicam-se ao acolhimento de outros seres humanos. As lideranças políticas, escusado será dizer, mostram-se pouco unidas nesta matéria. A população, em termos gerais, fragmenta-se em duas posições antagônicas.

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Este drama marcará o resto das nossas vidas. Impõe-se, assim, encará-lo com singular urgência e esmero. Sem a veleidade de solucioná-lo pelo uso da força. Caso o tentássemos, tornar-se-ia incontrolável. Conseguiríamos unicamente multiplicar as vítimas em vez de poupá-las. Não existem atalhos bélicos – bloqueios navais, aéreos ou territoriais (Lucio Caracciolo).

O drama dos refugiados

«A dramática situação dos refugiados, marcada pelo medo, pelas dificuldades e pelas incertezas, é uma triste realidade. Todos os dias, os refugiados fogem da fome e da guerra em busca de uma vida digna para si e para as suas famílias. Vão para terras distantes e, quando encontram trabalho, nem sempre encontram um acolhimento autêntico, respeito e valorização dos valores de que são portadores. As suas legítimas expectativas chocam com situações complexas e dificuldades que por vezes parecem insuperáveis; pensemos, portanto, no drama dos refugiados que são vítimas de rejeição e exploração, vítimas do tráfico de pessoas e do trabalho escravo» (Papa Francisco).

O desvalido, o sem-abrigo, o viandante, o estrangeiro, o indigente, aquele cuja dignidade humana se vê rebaixada pelas carências e privações, pela rejeição e pelo abandono, pelo descaso e pelo estranhamento, principia a ser acolhido no instante em que sinto como minha a sua humilhação e a sua vergonha, quando compreendo que o ultraje feito à sua humanidade é a minha própria humilhação.

Somente então, desprovido de estéreis culpas e de hipocrisias piedosas, pode florir a relação de hospitalidade que me impele a fazer todo o possível em prol do outro.

Cumpre, contudo, ter presente que a hospitalidade dignifica em primeiro lugar quem a pratica, pois, como recorda Pierangelo Sequeri: “ainda não começou a ser plenamente humano quem nunca sentiu compaixão pela humanidade ferida e vilipendiada no semelhante” (Trento Lungaretti).

Não é forçoso professar fé alguma nem pertencer à Igreja Católica para admirar quem se ajoelha diante dos homens para lhes lavar os pés.

O Papa Francisco determinou, uma vez mais neste ano, contrariar o funesto “espírito do tempo” e deslocar-se ao centro de acolhimento de requerentes de asilo de Castelnuovo di Porto, em Roma. Ali encontram-se “hospedadas” mais de 900 pessoas que escaparam da guerra, do terrorismo e da tortura.

Muitas trazem outra cor de pele, rezam a outro Deus e a sua maioria professa a fé muçulmana. Aqueles pés a lavar compõem o mapa do desespero, da segregação social e da privação de direitos e de horizontes. A “radicalidade” de Francisco reside justamente em escolher tal cenário e tais pés, praticando o gesto enquanto ressoam em torno os clamores da guerra, do terror e do preconceito (Beppe Giulietti).

Em Jesus, Deus veio pedir hospitalidade aos homens

Por conseguinte, estabelece a abertura ao acolhimento amoroso do outro como timbre distintivo do crente. Quis nascer numa família que não encontrou pousada em Belém (cf. Lc 2, 7) e suportou a agrura do desterro no Egito (cf. Mt 2, 14).

Jesus, que “não tinha onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20), pediu guarida àqueles que encontrava. Ao enviar os discípulos em missão, fez da hospitalidade que receberiam um gesto que a ele pessoalmente dizia respeito: “Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou” (Mt 10, 40).

A Igreja reafirma constantemente que a solicitude acolhedora com os desamparados constitui traço indelével da fé viva. (João Paulo II 1999)

Convertemo-nos, há muito, numa sociedade multicultural. Despontam, sem dúvida, entraves na compreensão recíproca e na inclusão dos forasteiros, bem como barreiras materiais no seio da comunidade receptora.

Todavia, enquanto cristãos, cumpre indagar em que proporção atendemos hoje ao apelo de Jesus respeitante à hospitalidade e o que nos diria o Cristo nos dias de hoje. A Palavra de Jesus permanece um repto inegociável, que a razão pura não pode simplesmente calar. Há de servir de bússola em todo o debate sobre acolhimento e integração nas nossas comunidades.

Não nos cabe delegar comodamente na política o compromisso integral da inclusão. (P. Adolfo Antonelli)

A narrativa evangélica por excelência que nos lega a matriz da hospitalidade é a do Bom Samaritano (Lc 10,29-37): um forasteiro, estigmatizado socialmente, presta socorro a um homem – potencialmente um adversário – agredido na estrada, pensa-lhe as feridas e resguarda-o numa estalagem, onde este encontra alívio e guarida.

Acolher traduz-se em conceder morada ao outro no nosso próprio chão, na nossa vida, nos nossos pensamentos e no íntimo do coração; equivale a conceder-lhe «direito de asilo», velando por si e pelo seu clamor por se sentir vivo, estimado e seguro. Em verdade, quem vive sem teto anseia por uma «família».

Jesus não apenas se avizinha dos segregados e dos estranhos, como se faz o próprio Hóspede da nossa história e da nossa existência. O seu périplo terreno é itinerância pura: provém do seio do Pai (Lc 1,34-38) e aponta a cada passo a pátria definitiva para onde todos caminhamos.

Chama-nos, por isso, ao seu seguimento. Ao declarar que os seus estão no mundo sem serem do mundo (Jo 17), devolve o ser humano à sua condição primordial: a de peregrino sobre a terra.

Peregrino é o ser humano na sua travessia pela vida e pela morte, em marcha ao encontro do Outro e de si mesmo, para reencontrar a sua humanidade mais límpida. (+ Bruno Forte)

Oração

(de Dom Bruno Forte, Arcebispo de Chieti-Vasto)

Deus, Pai misericordioso, que nos revelastes o vosso amor infinito no vosso Filho Jesus Cristo, feito homem por nós,

concedei-nos experimentar tão profundamente a vossa misericórdia que nos tornemos testemunhas e artífices da misericórdia junto de todos a quem nos enviais e nos confiais.

E que Maria, mãe de misericórdia, interceda por nós, para que vivamos com fé e generosidade de coração as obras de misericórdia, dóceis ao sopro do Espírito Santo, fôlego do Amor eterno.

Amém.

Ilustração da Irmã Marie-Anastasia Carré (Communauté des Béatitudes)

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