Todos os anos, quase 11 milhões de crianças morrem antes de atingir os 5 anos de idade; a desnutrição é a causa associada em 53% dessas mortes. Na Europa, 79 milhões de pessoas ainda vivem abaixo da linha da pobreza. Anualmente na Itália, jogam-se fora em média 8,7 bilhões de euros em razão do desperdício de alimentos. Hoje em dia, quando falamos de comida, pensamos apenas em nossos desejos gulosos… e a publicidade certamente não ajuda… Compre, coma, compre novamente.
Sobre quase 850 milhões de habitantes do planeta Terra (dos mais de 7 bilhões que o povoam) ainda pesa a fome crônica (definida como a ingestão de menos de 1.800 kcal por dia), enquanto 1,3 bilhão se encontra em uma situação diametralmente oposta, em condições de obesidade e sobrepeso (Relatório da FAO “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo-SOFI 2013”).
Nos países empobrecidos do hemisfério sul, o desafio diário costuma ser conseguir algo para comer, pois a escassez de alimentos ou sua apropriação por poucos que os subtraem de muitos é um dado evidente e real.
Morre-se de fome, sofre-se desnutrição, enfraquece-se até contrair facilmente doenças sem resistência no corpo para combatê-las: tudo isso é o reflexo da injustiça do mundo, lugar em que alguns «celebravam banquetes esplêndidos todos os dias» (cf. Lc 16,19), vivendo no luxo, ostentando riquezas e exibindo poder arrogante.
Para nós, que cremos no Deus que «dá alimento a toda a carne» (Sl 136,25), isto é, a todos os viventes, essa situação de fome parece injusta e absurda, uma contradição à bondade de Deus, que deseja a vida em abundância para todas as suas criaturas.
Somos levados a descobrir que a terra foi dada a todos; que a mesa repleta dos bens do mundo é destinada a todos; que ninguém pode afirmar que algo é apenas «seu», privando os semelhantes; que as riquezas estão distribuídas de maneira iníqua, de tal modo que a humanidade paradoxalmente sofre porque uma parcela está obesa enquanto a outra morre de fome (Enzo Bianchi).
Dom Oreste Benzi escreveu:
«Existe diferença entre serviço e partilha. O serviço exige desempenho, a partilha exige pertença. O pobre que encontras é um coração a ser compreendido, não um estômago a ser enchido. Se o tratares apenas como um estômago faminto onde jogas macarrão e carne assada, um dia ele devolverá tudo. O pobre é uma pessoa repleta de dons admiráveis, portadora de uma missão a realizar. O pobre aguarda a tua mão antes que lhe atires uma roupa usada. Se o tratares como um manequim sobre o qual colocas roupas gastas, um dia ele as atirará de volta com veemência, rejeitando a tua pessoa. Ele deseja que lhe peças perdão porque tens tudo: ele foi despojado de tudo por esta sociedade que te deu em abundância para que apenas lhe desses migalhas, ferindo sua dignidade, humilhando-o. Para junto do sem-abrigo nas ruas: dialoga com ele antes de abrir a carteira. Conversa com o limpador de vidros, não o vejas como um incômodo; fala-lhe em sua humilhação e ele compreenderá.»
Diz o Catecismo da Igreja Católica (número 2463): Na multidão de seres humanos sem pão, sem teto, sem residência fixa, como não reconhecer Lázaro, o mendigo faminto da parábola? Como não ouvir novamente a voz de Jesus: «A mim o fizestes; a mim deixastes de fazer» (Mt 25).
O apóstolo Tiago afirma: «Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos”, sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes adiantará isso? Assim também a fé: se não tiver obras, está morta em si mesma» (Tg 2,15-16).
Recordemos Jesus afirmando: «Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus…» (Mt 4,4). Quando um cristão alimenta os famintos, não age em nome próprio, mas no Nome dAquele que é Misericórdia infinita, que sustenta os necessitados com o pão diário e fez de Si mesmo Alimento na Eucaristia, Pão da vida eterna, nutrição soberana. Rezamos no Pai Nosso: «o pão nosso de cada dia nos dai hoje…».
Um alimento infinitamente mais transcendente e indispensável: o próprio Jesus Cristo! «Eu sou o Pão da vida. Eu sou o Pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei de dar pela vida do mundo é a minha carne» (Jo 6,48-51).
Envia-me alguém para amar, de Madre Teresa de Calcutá
Senhor,
quando tiver fome, concede-me alguém que precise de comida;
quando estiver triste, oferece-me alguém para consolar;
quando a minha cruz pesar, faz-me partilhar a cruz de outro;
quando for humilhado, concede-me alguém para louvar;
quando estiver desanimado, envia-me alguém para encorajar;
quando precisar da compreensão alheia, dá-me alguém que necessite da minha;
quando desejar que cuidem de mim, proporciona-me alguém de quem cuidar;
quando pensar somente em mim, atrai o meu olhar para o irmão.
Fazei-nos dignos, Senhor, de servir os nossos irmãos que vivem e morrem pobres e famintos pelo mundo.
Ilustração de Irmã Marie-Anastasia Carré (Communauté des Béatitudes)

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