XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM

22 de September, 2026

Carlo Miglietta
matteo

Chamados à autenticidade

Leituras: Ez 18,25-28; Fil 2,1-11; Mt 21,28-32

As Leituras de hoje convidam-nos a levar a sério a nossa fé. Não basta pertencer à Igreja, frequentar as suas liturgias, participar nos seus sacramentos, para nos sentirmos “em regra”. A primeira Leitura apresenta-nos Ezequiel, o grande profeta da responsabilidade individual, que nos recorda que aquilo que conta é a nossa ortopráxis, a obediência pessoal e concreta ao Senhor (Ez 18,25-28). O Evangelho anuncia inclusive que prostitutas e pecadores precederão no Reino dos céus tantos que se consideravam “justos” por pertença social ou eclesial (Mt 21,28-31). Não basta, portanto, uma religiosidade exterior, meramente cultual: “Então começareis a dizer: «Comemos e bebemos na tua presença e ensinaste nas nossas praças». Mas ele declarará: «Digo-vos que não sei donde sois»” (Lc 13,22-30); “Nem todo o que me diz: «Senhor, Senhor!», entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai… Muitos me dirão naquele dia: «Senhor, não profetizámos nós… e expulsámos demónios… e realizámos muitos milagres em teu nome?». Eu, porém, declarar-lhes-ei: «Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade»” (Mt 7,12-23).

Paulo, na segunda Leitura, afirma que ser cristão significa ter “os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”, sabendo, como ele, “despojar-se”, “fazer-se servo”, “obediente até à morte e morte de cruz” (Fil 2,1-11). Como exortará João: “Não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e em verdade” (1 Jo 3,18). Jesus afirma a propósito da pecadora: “São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou” (Lc 7,47). De facto, dirá Pedro, “a caridade cobre uma multidão de pecados” (1 Pe 4,8). Pelo contrário, segundo a palavra do Senhor, tantos se salvarão apenas porque terão ajudado os pobres, mesmo sem conhecer o Cristo: “Sempre que fizestes uma destas coisas a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Assim como não terão acesso à salvação muitos que, embora não o conhecendo, não o terão servido nos necessitados e nos que sofrem (Mt 25,44-46).

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Também a Eucaristia pode, portanto, ser ocasião de hipocrisia, ilusão de salvação (1 Cor 11,29). Pense-se em quantas Missas são celebradas para notáveis de clãs mafiosos, ou para exércitos envolvidos nas guerras, ou para responsáveis de violências, ou para agentes económicos que com as suas decisões determinam a morte por fome ou por doenças curáveis de tantos pobres no mundo; ou para nós que recusamos converter-nos verdadeiramente… A Eucaristia é sempre algo de extremamente sério e exigente: celebrá-la não é um mero ritual que alivia a consciência: é fazer-se um com Cristo, para depois sair ao mundo e tornar-se, como ele, dom total, dispostos a sacrificar a vida por amor. “A ceia do Senhor é o centro, o coração do grande mistério da presença de Cristo em todo o tempo… Se se fica à superfície, à margem deste modo de manifestar-se, de estar presente do Filho de Deus; se nos limitamos a um consumo formal ou ritual daquilo que a ceia do Senhor oferece; se se esgota o contacto com esta imensa realidade numa experiência intimista e sentimental; se celebrar a Eucaristia não quebra as resistências pessoais, as categorias mentais e sociais, não abre a uma autêntica experiência interior e eclesial de convivialidade em torno de Cristo, quer dizer que a fé não identifica, não amadurece a personalidade segundo a imagem de Deus em nós que deve revelar-se, não instaura verdadeira universalidade, de misericórdia, de ternura, de graça, de pacificadora gratuitidade. Pelo contrário, a hipocrisia divide-nos, mascara-nos; não temos a veste apropriada” (D. M. Turoldo).

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